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ENTREVISTA
de Sandra Nobre
Acha
que é uma questão que continua actual: a defesa do território e do
nosso património? -
É um problema actual, nesse sentido em que há pessoas aparentemente
responsáveis e jornais importantes que põem em causa essa questão. É
claro que nós temos que ser os melhores aliados dos nossos vizinhos,
podemos tirar daí vantagens geográficas e não só. Há questões que
devem ser tratadas em conjunto, como as águas, os portos, a agricultura.
Isso só é possível se houver confiança mútua e respeito.
Há ainda um aspecto dramático de destruição da nossa identidade
Nacional, é o que se passa com a arquitectura. Os emigrantes não foram
minimamente ajudados e acabaram por desfigurar uma grande parte das nossas
Aldeias com as suas casas, onde gastaram as economias de uma vida e das
quais em geral pouco irão aproveitar, mas muito mais responsabilidades têm
arquitectos com a fama de Sisa Vieira e grandes grupos empresariais como o
que desfigurou o Chiado ao construir dois blocos cobertos de azulejos e de
varandas ridículas num estilo totalmente desenquadrado do ambiente do
Chiado, entre a Rua António Maria Cardoso e a Rua do Alecrim. Posso saber do que
se trata?
De
acordo com os estudos, é muito grave para a saúde das crianças aprender
a escrever em cima de mesas horizontais. As crianças deitam-se em cima
das mesas, todas tortas, têm os olhos a distâncias desiguais em relação
ao papel, e isto cria problemas de vista, de coluna, e pode provocar
outros, como a dislexia. Agora que tenho crianças na escola primária e
observo como eles se comportam, considero que o que se vem fazendo em
Portugal é um crime contra a infância e que é preciso estudar e
corrigir. Inclusive, já mandei o dossier ao Ministério da Educação. Já teve alguma
resposta?
Ainda
não. Hoje em dia, a
monarquia é uma ideologia?
-
Não, o que é ideologia é a causa republicana. Os republicanos criaram a
ideia que o chefe de Estado é eleito pelo povo em geral e que o povo vai
eleger o melhor de todos os cidadãos para aquele cargo. Na verdade, é
eleito o que tem mais dinheiro para a campanha eleitoral, o que tem o
apoio dos políticos mais poderosos, o que consegue ter os melhores
assessores a cuidar-lhe da imagem. O produto que é melhor vendido, é o
que ganha as eleições. Há presidentes da República, hoje, no mundo,
que foram eleitos pelos narcotraficantes ou das formas mais extraordinárias
possíveis, já para não falar dos que foram postos por golpes de Estado.
Em teoria, a república é mais democrática, mas, na prática, as
monarquias foram avançando desde a Idade Média. Acha
que estamos assim tão mal? Se
nos compararmos com os países que ficaram com as suas monarquias e que
evoluíram normalmente, vemos que estão todos à frente de Portugal. De
resto, Portugal conseguiu, de 1910 até hoje, passar do meio da escala da
Europa para último país em todos os campos. Procurámos resolver os
problemas, primeiro, com o Gomes da Costa, depois foi com a revolução de
1974, mas cada vez que há uma revolução perde-se imenso tempo,
estraga-se a economia e atrasamo-nos imenso. Para conseguir o quê?
Conseguir uma democraciazinha mazinha, o que Espanha conseguiu em seis
meses com o Rei. Está desiludido
com o país que temos?
Eu
sinto-me preocupado, porque vejo que a maioria dos cidadãos não está a
perceber a origem dos problemas. Queixam-se das consequências, mas não vão
votar. Se pensarmos na maneira como foi gasto o dinheiro da adesão à União
Europeia em obras de luxo, como a Expo’98, a Ponte Vasco da Gama,
auto-estradas para todo o lado, em vez de aplicar essas verbas na formação
humana, na reestruturação da administração e da justiça, o que hoje
permitiria que tivéssemos melhores profissionais em todas as áreas para
modernizar o país. Nada do que foi
feito valeu a pena?
Basta
ver que, hoje, temos o maior índice de pobreza do Sul da Europa, as
piores reformas, os piores salários, a pior rentabilidade, a pior formação
profissional, tudo isso faz com que as empresas não sejam competitivas, e
os mesmos senhores ideólogos que nos meteram nesta situação também
decidiram que Portugal tinha que ter a moeda da Alemanha, quando os países
que não aderiram ao euro, como a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a
Inglaterra, têm as suas economias a funcionar muito melhor. O único
argumento usado para justificar a nossa adesão ao euro é que
os governantes não são
capazes de garantir a estabilidade da nossa economia, por isso precisávamos
que outros tomassem conta dela. Há ainda o argumento político: se nós
queremos criar uma nação europeia, um estado europeu, então temos que
ter uma moeda única. Mas quem é que perguntou ao povo português se queríamos
criar uma nação europeia? Receia uma perda
de identidade?
Não
necessariamente. Os bascos mantêm a sua identidade, assim como os índios
dos Estados Unidos, mas não têm é independência. O que eu acho grave
é perdermos a independência e as decisões que são importantes para nós
serem tomadas por outros. A construção europeia é uma porta aberta para
todos os abusos. Perante
este cenário, sente alguma frustração por ser um rei sem coroa? Em
certa medida, para muito portugueses Portugal tem um Rei, mas pode-se
dizer que a missão do rei em Portugal é uma missão simbólica, uma
referência histórica. Curiosamente, mais de metade da população, não
sendo a favor da monarquia, acha que é importante haver uma família real
em Portugal. Não gostaria de
poder ter um papel mais participativo?
Repare:
nós somos convidados em média, por ano, por 50 a 60 câmaras municipais,
somos convidados para uma série de acontecimentos de índole cultural e
histórica. O mesmo sucede em relação a Timor e a Angola, onde temos
sempre um acolhimento especial. Isso significa que há uma participação
que é válida. E emocionalmente,
sente-se um rei?
(silêncio)
Sinto, sobretudo, que tenho uma responsabilidade, em relação a Portugal,
superior, ou diferente, dos outros portugueses, e tento incutir essa ideia
nos meus filhos. Todos temos responsabilidades em relação ao país. Há
apenas duas vocações: ser sacerdote e ser militar. O resto são profissões.
De facto, uma pessoa que se disponha a sacrificar-se pelo seu país está
numa posição parecida com a de um rei... Nenhum rei reinante dá opiniões
políticas. Há pessoas que me criticam porque o faço, mas se eu não
falar sobre política estou a perder uma oportunidade de dizer aquilo que
considero que é importante para o país. Essa é a sua
forma de participar activamente na vida do país?
Exactamente.
Mas, eu tomo cuidado para não tomar posições partidárias, isso evito
fazer. Essa
responsabilidade que toma para si, em relação a Portugal, foi-lhe
incutida cedo? Aprende-se a ser um rei? O
meu pai e o meu avô sacrificaram muito da sua vida. Podiam ter feito
coisas muito mais agradáveis, ter bons empregos, tinham apetências
profissionais, que nunca conseguiram realizar verdadeiramente. O meu pai
era engenheiro agrónomo, não era propriamente aquilo que ele gostava,
ele interessava-se era por engenharia mecânica, máquinas, aviões,
motores. Na altura, os portugueses que lhe pagaram o curso universitário,
porque ele não tinha dinheiro para o fazer, disseram-lhe que tinha que
seguir agronomia, porque Portugal era um país agrícola e tinha muito
mais sentido que assim fosse. Ele aceitou, para servir o país. Foram
esses ensinamentos que eu herdei. E
no seu caso, por que escolheu agronomia? Procurou seguir os passos do seu
pai? Não,
de todo. Eu fiz testes psicotécnicos, mas, para além disso, sempre fui
muito interessado na questão do desenvolvimento rural, da agricultura
como forma de protecção da natureza. Onde acabei por aplicar mais os
meus conhecimentos nessa área foi em Angola, em programas de
desenvolvimento rural. Apostei também na implantação das Caixas Agrícolas
Mútuas, que tiveram um papel fundamental na vida dos agricultores
portugueses. Há
em si um apego à terra que lhe vem donde? Nasceu na Suíça, nunca esteve
muito tempo num lugar. Sinto
as minha raízes em Portugal, claro, mas também em relação a África, a
Timor e ao Brasil tenho o mesmo sentimento. Fernando Pessoa dizia: «A
minha pátria é a língua portuguesa». Eu digo: onde há pessoas que
falem português está a minha pátria. Dos tempos de África,
guardou o cheiro da terra?
Sim,
isso é inesquecível, é muito forte. Sabe, gostava muito de fazer um
filme sobre a cultura e a tradição dos povos africanos... É um sonho, como
o desejo de ser piloto de helicópteros, que concretizou na Força Aérea
e depois no teatro da guerra colonial?
Eu
queria muito ser piloto, teria gostado também de ir para a Marinha, mas aí
provavelmente o governo da república ter-me-ia posto numa unidade militar
em que eu ficasse no continente, e na Força Aérea todos os pilotos iam
para África. Essa era a única certeza que eu tinha, que iria para África.
Fiz a minha formação em Tancos, e quando fui para Angola colocaram-me
numa base aérea onde não havia helicópteros e só podia voar em aviões
normais. E o que fez?
Fiz
vários pedidos a solicitar a transferência para uma base onde houvesse
helicópteros, nomeadamente na Guiné, que foram sempre indeferidos. Mais
tarde, vim a saber que eram ordens do Ministro da Defesa, que era um
republicano fanático. Em determinada altura, eu estava proibido de voar
em qualquer avião e, comprei uma mota. Dediquei-me a fazer visitas a
aldeias africanas, saber da situação, ouvir as queixas das pessoas. Foi
assim que completei o meu serviço militar em Angola. Mas chegou a voar
em helicópteros?
Voei,
até porque também tenho a licença civil pelo Aeroclube de França. Mas
voei muito pouco em Angola. Sentiu-se injustiçado
pelos sucessivos governos?
Depois
de 74, em geral, tive um bom relacionamento com os sucessivos governos. Chegou
a estar no palco de guerra? Sim.
Ficaram-lhe
marcas psicológicas, imagens que nunca conseguiu esquecer daquilo a que
assistiu? Não,
porque estive pouco tempo no cenário de guerra propriamente dito. Andava
mais nas aldeias, apanhei apenas alguns sustos, mas nada de marcante.
Houve sim algumas paixões, ligações afectivas. Conte-me como é
que esta casa, em S. Pedro de Sintra, se tornou a sua casa. Porque desde
que chegou a Portugal andava sempre de terra em terra.
Esta
casa foi a minha conquista revolucionária, comprei-a em 1975. Eu quando
vim para Portugal, primeiro, fui morar para Gaia, para uma casa emprestada
pela D. Maria Borges. Depois, o governo disponibilizou ao meu pai uma casa
que tinha sido comprada pela Fundação de Bragança para nós vivermos lá.
Em 1975, com a revolução, saímos de lá. O meu pai foi viver para casa
de uma tia, em Ferragudo, no Algarve, depois apanhou uma febre e morreu,
no dia de Natal de 1975. Deve
ser uma data muito especial para si. É.
E nessa altura aconteceu algo muito emocionante. Eu sabia que o meu pai
estava doente, que estava mal, mas não imaginava que fosse realmente tão
grave e fui passar esse Natal com os timorenses, que se reuniram no Jamor.
Houve festa e uma dança com espadas. Durante a dança, quebrou-se uma das
espadas e os chefes ficaram com um ar muito comprometido, fez-se silêncio,
parou tudo, parou a festa. Eu não percebia o que se passava, até que
alguém me explicou que quando se quebra uma espada durante aquela dança
significa que vai morrer um rei. Foi exactamente na hora em que morreu o
meu pai. É
uma história triste e, ao mesmo tempo, fantástica. Nas
casas. O
mais curioso é que poderíamos recuar no tempo e tudo seria igual: a
horta, a lenha, a nascente... A sua vivência é muito frugal, diria até
que pouco condizente com um rei. Repare.
Os reis têm palácios que simbolizam o próprio país, ainda assim a
maior parte dos reis custa menos ao Estado do que os presidentes da república.
No meu caso, eu procuro dar o exemplo e não fazer aquilo que critico. Por
exemplo, muitas vezes vou de comboio para Lisboa e nas deslocações pelo
país A que é que se
dedica actualmente?
As
minhas actividades são para a Fundação D. Manuel II, sem fins
lucrativos. A última em que eu tive um salário dependente foi na Força
Aérea, onde estive durante quatro anos. De resto, agora, ocupo-me muito
com as crianças, que são a actividade mais sonante e mais interessante
do meu dia-a-dia. Isabel e eu temos esse papel de preparar o futuro da
construção de Portugal através dos filhos e não deixá-los apenas na
escola, mas participar nas actividades deles. Tão importante como a formação
intelectual e física, é a formação moral. Porque se vamos criar uma
geração futura de crianças egoístas, indiferentes aos outros, não
podemos ter um país desenvolvido. Incute-lhes os
valores cristãos?
Sim.
A formação moral, só funciona de for baseada na religião. Se eu
acredito em Deus e em que ele observa a minha vida, tenho que ser honesto
a sério, sacrificar-me e viver de acordo com os seus ensinamentos. Eu
acredito que a vida continua depois da morte. Essa
é uma ideia confortável que lhe vai permitir continuar a acompanhar os
seus filhos, mesmo quando já não estiver junto deles? Sim.
É uma ideia cristã que estabelece uma ligação entre todas as gerações,
da mesma forma que acredito que os meus antepassados olham por mim. É uma
questão de fé. A morte é um
assunto que o preocupa?
Claro
que sim, no sentido em que é uma separação das pessoas que gosto.
Gostaria de morrer sem sofrimento, sobretudo, sem incomodar as outras
pessoas. Foi assim também com os meus pais. Estou convencido que, de
algum modo, nós morremos assim como vivemos. Acredita
que as pessoas que sofrem tiveram uma vida menos condizente com os
ensinamentos da fé? Acredito
que essas pessoas precisavam da purificação, de ter algum aperfeiçoamento,
antes de seguirem o seu caminho. O sofrimento é algo misterioso. Há
pessoas que sofrem imenso e ainda assim são felizes, que dão uma dimensão
espiritual à sua vida, de outra forma o desespero poderia levá-las ao
suicídio. Para quem não tem fé, não vejo que o suicídio seja uma
salvação. Agora, o Estado não pode impedir as pessoas de se matarem,
pode e deve é impedir que se matem outros, sejam os idosos doentes, os
doentes terminais, ou as crianças que ainda não nasceram, através do
aborto. Do ponto de vista ético é inaceitável, porque abre o
pressuposto de que se pode decidir sobre a vida dos outros sem o seu
consentimento. Mas
o aborto não pode ser também um acto de amor e de generosidade de quem
quer o melhor para um filho e não tem muito para lhe dar? -
Eu sou a favor de que as mães que pratiquem o aborto não sejam
penalizadas por isso, até porque geralmente estão em condições psicológicas
difíceis e em situações complicadas. Mas, para esse problema, a solução
que temos que encontrar é de apoio a todos os níveis para essas mulheres
e não persegui-las judicialmente. Quem devem ser perseguidos são os
comerciantes do aborto, clínicas, etc.! O
Estado não pode é legalizar o aborto e autorizar que os médicos o façam,
porque se o fizer está a admitir que temos o direito de decidir sobre a
vida dos outros e acabar com as mazelas da sociedade. O interesse da
comunidade passa por cima dos direitos individuais. Há também o caso dos
drogados, e aí até que pontos nós temos o direito de impedir uma pessoa
de se matar com droga? Deve o Estado perseguir estes indivíduos ou
despenalizar as drogas e deixar que cada um decida por si? Qual
é a sua opinião sobre essa matéria? Não
tenho uma opinião formada sobre o assunto. Outro caso: a prostituição,
que oficialmente não existe e, no entanto, há milhares de adultos e
jovens que a praticam. Na Suécia perseguem-se os clientes das
prostitutas. Nós preferimos fazer de conta que não existem. E os
violadores? Na Suíça, os praticantes de pederastia com menores são
condenados a prisão perpétua sem possibilidade de serem libertados. Está de acordo
com a prisão perpétua nesse caso?
A
Suíça é um país profundamente democrático, em que as decisões não são
tomadas pelas auto-nomeadas elites culturais ou políticas, mas é o povo
quem decide o que é importante. Os suíços decidiram em referendo, com
uma maioria de 67 por cento dos votos. Em Portugal nunca se perguntou o
que se pensa sobre esta ou outras matérias. Mas concorda?
Não
dou opinião sobre isso, sem uma análise séria da questão. O que não
pode acontecer é passar por cima dos problemas sem olhar para eles, sem
os discutir, sem perguntar ao povo o que pensa sobre o assunto. Se
queremos uma justiça adequada, temos que ter prioridades e gastar o
dinheiro público nas instituições fundamentais para o país e não em
estádios de futebol e obras de países ricos. Veja-se o dinheiro que se
desperdiçou na Expo’98. O
que representou culturalmente e as pessoas que trouxe não foi positivo? O
que é que se aprendeu culturalmente? Da História de Portugal, nada. Eu
fui contra a Expo desde o princípio, da mesma forma que fui contra a
Ponte Vasco da Gama, porque temos que ter prioridades quando somos dos países
mais atrasados da Europa. Um dos papéis em
que se sente confortável é o de diplomata?
Sim,
e procuro levar a minha diplomacia a países em que é mais difícil o
relacionamento. Foi o caso da Indonésia, em que convenci o
vice-presidente da república de que Timor era diferente do resto da Indonésia
e que eles deviam ter um governo completamente autónomo. Quando ele
chegou a Presidente, foi apresentada a proposta para conduzir primeiro
Timor à autonomia e depois, em referendo, diriam se estavam contentes ou
se queriam a independência. Ora, o que sucedeu foi que o referendo foi
feito ainda durante o regime militar, o que levou aos confrontos pós-eleitorais.
Eu estou convencido que se a minha proposta tivesse sido seguida, hoje
Timor era um país independente, provavelmente teria um estatuto de
associação com Portugal ou com a União Europeia, não tinha os
problemas económicos dramáticos que tem. Também tenho uma solução
para Angola, que não é ouvida. E, no entanto, sou bem recebido e ouvido
em todo o lado. Nos países árabes, sou recebido não só como português,
mas como descendente do profeta Maomé. Do profeta?
Sim.
Porque a rainha Santa Isabel é descendente de uma princesa árabe
descendente do profeta Maomé. Depois casou com o rei de Aragão. De modo
que eu tenho essa árvore genealógica muito interessante que é sempre
bem vista nos países islâmicos. É uma grande
responsabilidade?
É.
Por outro lado, quando estou com os meus amigos judeus, explico-lhes que
através de D. Afonso Henriques também sou descendente de David... E
que outras questões lhe ocupam o tempo para além da diplomacia? Interessa-me
muito o problema da língua portuguesa entre as comunidades emigrantes
portuguesas no mundo. A Fundação D. Manuel II, de que sou presidente, não
tem muitos meios, mas tem feito acções interessantes: estabelecemos
bibliotecas em todos os países lusófonos, a única biblioteca portuguesa
que há em Goa é nossa; ajudámos Timor, comprámos uma gráfica que foi
entregue à diocese de Baucau e que é uma ferramenta determinante para a
leitura e que foi ajudar a economia do território. Devíamos investir a sério
no envio de livros para as comunidades. Se pensarmos no dinheiro que foi
deitado fora na construção do monstro do CCB, 10 por cento do seu custo
serviria para fornecer todos os livros necessários para permitir que se
continuasse a falar português nos países lusófonos. Fale-me de D.
Isabel de Herédia. O que o encantou nela?
A inteligência,
a boa disposição, a alegria. Eu conheci a minha mulher em criança, em
Angola, ela tinha sete anos. Fomos sempre como irmãos, até que, em
determinada altura, eu me dei conta de que estava sempre a comparar as
minhas amigas e as minhas namoradas com a Isabel, ela era a referência,
as outras eram sempre menos interessantes, menos bonitas. E pensei que
realmente podíamos ser mais do que amigos.
Pediu-a em namoro?
Sim. A Isabel
foi apanhada de surpresa. Pedi-a em casamento uma vez, em Santiago de
Compostela. Ela pediu-me para pensar e como passou algum tempo e não tive
resposta, não insisti. Passado uns tempos, eu fui ao Brasil, onde ela se
encontrava a viver, e pedi-lhe novamente, ao que ela me disse que estava
apenas à espera que eu perguntasse. E aceitou. Ainda bem que insisti.
(risos)
Falou em «várias
namoradas». Era muito namoradeiro?
Sim,
um pouco instável. Tive várias namoradas, mesmo em Angola, depois houve
uma com quem acreditei que ia mesmo casar, uma russa, mas não
se concretizou. Teve
o seu primeiro filho aos 50 anos. Foi um pai tardio. Não.
Aconteceu que as raparigas com que eu achei que devia casar acabaram por não
dar esse passo. As outras, que estavam mais interessadas em mim, eu achava
que não eram a pessoa certa. Acha
que seria a mesma pessoa se não tivesse nascido com essa responsabilidade
de ser rei? Metade
de nós é uma herança genética, de cromossomas, a outra metade é uma
herança cultural. Os meus pais incutiram-me determinados valores que se
prendem com essa responsabilidade. Não sei como seria, se fosse outra
pessoa... Talvez estivesse simplesmente a trabalhar em África, ou num
programa de desenvolvimento social. Mas é difícil saber. Por vezes,
gostaria de não sentir esse peso da história?
Tinha
algumas vantagens, mas não vale a pena pensar nisso. Devo antes pensar
que devo dar o melhor de mim com as capacidades que tenho. Imagina-se
que uma família real tem terras, património, dinheiro... ...
Isso depende. Veja-se a Rainha de Inglaterra, que é considerada muito
rica, mas a escritora do Harry Potter é muito mais rica do que ela. Mas tem privilégios
por ser o Chefe da Casa Real?
Tenho
mais deveres, no sentido da responsabilidade em relação ao país, de que
já falámos. Sente
que a vida lhe foi mais fácil, que se abriram portas, por ser o herdeiro
ao trono? Permitiu-me,
sobretudo, trabalhar em projectos sociais e actuar nesse campo, dar
resposta a problemas muito graves. Mas também criou problemas. As pessoas
são muito preconceituosas. Sente-se
discriminado por isso?
Sim,
ainda hoje. Com que cognome
é que acha que ficaria para a história?
É
curioso que só em Portugal todos os reis ficaram com um nome associado.
É algo que já pensei, mas nunca cheguei a uma conclusão. Revê-se no seu
boneco do «Contra-Informação»?
Acho
engraçado, embora em determinada altura, quando eu disse que tinha sido
um prejuízo enorme para a cultura portuguesa que Saramago tivesse sido
distinguido com o prémio Nobel, tenham feito uma campanha hostil contra
mim. E, às vezes, ainda me põem a fazer uma figura um bocado apatetada.
Mas há outros piores do que eu. Mas ri-se com o
que vê?
Acho
muito divertido. DESTAQUES: «Os
republicanos criaram a ideia que o chefe de Estado é eleito pelo povo em
geral e que o povo vai eleger o melhor de todos os cidadãos para aquele
cargo. Na verdade, é eleito o que tem mais dinheiro para a campanha
eleitoral, o que tem o apoio dos políticos mais poderosos, o que consegue
ter os melhores assessores a cuidar-lhe da imagem. O produto que é melhor
vendido, é o que ganha as eleições. E pode ser um indivíduo anormal» «Portugal
conseguiu, de 1910 até hoje, passar do meio da escala da Europa para último
país em todos os campos. Procurámos resolver os problemas, primeiro, com
o Gomes da Costa, depois foi com a revolução de 1974, mas cada vez que há
uma revolução perde-se imenso tempo, estraga-se a economia e
atrasamo-nos imenso. Para conseguir o quê? Conseguir uma democraciazinha
mazinha, o que Espanha conseguiu em seis meses com o Rei. Nem se pode
dizer que o 25 de Abril ou o 5 de Outubro tenham valido a pena» «Se
queremos uma justiça adequada, temos que ter prioridades e gastar o
dinheiro público nas instituições fundamentais para o país e não em
estádios de futebol e obras de países ricos. Veja-se o dinheiro que se
desperdiçou na Expo’98. O que é que se aprendeu culturalmente? Da História
de Portugal, nada. Eu fui contra a Expo desde o princípio, da mesma forma
que fui contra a Ponte Vasco da Gama, porque temos que ter prioridades
quando somos dos países mais atrasados da Europa» «Os
reis têm palácios que simbolizam o próprio país, mas a maior parte dos
reis custa menos ao Estado do que os presidentes da república. No meu
caso, eu procuro dar o exemplo e não fazer aquilo que critico. Por
exemplo, muitas vezes até vou de comboio para Lisboa e nas deslocações
pelo país. Mas sou muito discreto. Ponho o chapéu na cabeça e aproveito
para descansar. Às vezes vêm falar. Aborrecido é quando ficam só a
olhar para nós» Entrevista de: Sandra Nobre |
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