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D. Duarte Pio
de Bragança

ENTREVISTA de Sandra Nobre

«O que eu acho grave é perdermos a independência e as decisões que são importantes para nós serem tomadas por outros. A construção europeia é uma porta aberta para todos os abusos»

É o próprio D. Duarte quem me convida a entrar em sua casa, em S. Pedro de Sintra. Está frio na vila, mas, na sala da quinta, a lareira torna o espaço acolhedor. Tomamos uma xícara de chá enquanto deixamos que a conversa siga pelo caminho que escolher. D. Duarte Pio de Bragança é o Chefe da Casa Real Portuguesa. Nasceu na Suíça, na embaixada portuguesa em Berna, onde a família estava então exilada. No regresso a Portugal, revelou uma paixão imensurável pela terra, pelo seu país e assumiu a responsabilidade de ser o herdeiro da coroa. Tem 58 anos e três filhos. Começamos diante de um quadro. Uma cena histórica em que alguém, ao morrer, grita que não se entregue o território a Castela. Tantos portugueses que deram a vida para garantir a nossa liberdade e agora há uns tontos que acham que o melhor é entregar o país. Acho que é uma coisa perfeitamente inconcebível. De resto, não conheço nenhum outro povo no mundo que tenha este tipo de reacção perante os problemas.

Acha que é uma questão que continua actual: a defesa do território e do nosso património?

- É um problema actual, nesse sentido em que há pessoas aparentemente responsáveis e jornais importantes que põem em causa essa questão. É claro que nós temos que ser os melhores aliados dos nossos vizinhos, podemos tirar daí vantagens geográficas e não só. Há questões que devem ser tratadas em conjunto, como as águas, os portos, a agricultura. Isso só é possível se houver confiança mútua e respeito.  Há ainda um aspecto dramático de destruição da nossa identidade Nacional, é o que se passa com a arquitectura. Os emigrantes não foram minimamente ajudados e acabaram por desfigurar uma grande parte das nossas Aldeias com as suas casas, onde gastaram as economias de uma vida e das quais em geral pouco irão aproveitar, mas muito mais responsabilidades têm arquitectos com a fama de Sisa Vieira e grandes grupos empresariais como o que desfigurou o Chiado ao construir dois blocos cobertos de azulejos e de varandas ridículas num estilo totalmente desenquadrado do ambiente do Chiado, entre a Rua António Maria Cardoso e a Rua do Alecrim. Após este vandalismo já ninguém poderá deixar de compreender o que é que eu venho defendendo desde há tantos anos. Também em Fátima, a esplanada do Santuário ficará irremediavelmente desfigurada com a monstruosa construção cúbica que está a ser espetada no seu meio. Já deram cabo de Sagres com uma palhaçada arquitectónica e muitos castelos e monumentos em Portugal foram ou estão a ser desfigurados com obras pagas pelo próprio Estado Português.  Alguns arquitectos  e funcionários públicos consideram-se donos absolutos e arbitrários do nosso património cultural construído. É curioso que comecemos por aqui. Não o imaginava uma pessoa que gosta de desencadear polémicas. Não? Eu até alimento bastantes polémicas! Veja-se o caso de Timor. Uma grande percentagem das elites portuguesas era a favor de esquecermos o território e fazermos negócio com a Indonésia, a que eu me opus. Agora, por exemplo, estou a estudar a documentação que existe do professor Henrique Martins da Cunha, presidente da Associação Europeia de Medicina Postural, e vou desencadear outra polémica.

Posso saber do que se trata?

De acordo com os estudos, é muito grave para a saúde das crianças aprender a escrever em cima de mesas horizontais. As crianças deitam-se em cima das mesas, todas tortas, têm os olhos a distâncias desiguais em relação ao papel, e isto cria problemas de vista, de coluna, e pode provocar outros, como a dislexia. Agora que tenho crianças na escola primária e observo como eles se comportam, considero que o que se vem fazendo em Portugal é um crime contra a infância e que é preciso estudar e corrigir. Inclusive, já mandei o dossier ao Ministério da Educação.

Já teve alguma resposta?

Ainda não.

Hoje em dia, a monarquia é uma ideologia?

- Não, o que é ideologia é a causa republicana. Os republicanos criaram a ideia que o chefe de Estado é eleito pelo povo em geral e que o povo vai eleger o melhor de todos os cidadãos para aquele cargo. Na verdade, é eleito o que tem mais dinheiro para a campanha eleitoral, o que tem o apoio dos políticos mais poderosos, o que consegue ter os melhores assessores a cuidar-lhe da imagem. O produto que é melhor vendido, é o que ganha as eleições. Há presidentes da República, hoje, no mundo, que foram eleitos pelos narcotraficantes ou das formas mais extraordinárias possíveis, já para não falar dos que foram postos por golpes de Estado. Em teoria, a república é mais democrática, mas, na prática, as monarquias foram avançando desde a Idade Média.

Acha que estamos assim tão mal?

Se nos compararmos com os países que ficaram com as suas monarquias e que evoluíram normalmente, vemos que estão todos à frente de Portugal. De resto, Portugal conseguiu, de 1910 até hoje, passar do meio da escala da Europa para último país em todos os campos. Procurámos resolver os problemas, primeiro, com o Gomes da Costa, depois foi com a revolução de 1974, mas cada vez que há uma revolução perde-se imenso tempo, estraga-se a economia e atrasamo-nos imenso. Para conseguir o quê? Conseguir uma democraciazinha mazinha, o que Espanha conseguiu em seis meses com o Rei.

Está desiludido com o país que temos?

Eu sinto-me preocupado, porque vejo que a maioria dos cidadãos não está a perceber a origem dos problemas. Queixam-se das consequências, mas não vão votar. Se pensarmos na maneira como foi gasto o dinheiro da adesão à União Europeia em obras de luxo, como a Expo’98, a Ponte Vasco da Gama, auto-estradas para todo o lado, em vez de aplicar essas verbas na formação humana, na reestruturação da administração e da justiça, o que hoje permitiria que tivéssemos melhores profissionais em todas as áreas para modernizar o país.

Nada do que foi feito valeu a pena?

Basta ver que, hoje, temos o maior índice de pobreza do Sul da Europa, as piores reformas, os piores salários, a pior rentabilidade, a pior formação profissional, tudo isso faz com que as empresas não sejam competitivas, e os mesmos senhores ideólogos que nos meteram nesta situação também decidiram que Portugal tinha que ter a moeda da Alemanha, quando os países que não aderiram ao euro, como a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Inglaterra, têm as suas economias a funcionar muito melhor. O único argumento usado para justificar a nossa adesão ao euro é que  os  governantes não são capazes de garantir a estabilidade da nossa economia, por isso precisávamos que outros tomassem conta dela. Há ainda o argumento político: se nós queremos criar uma nação europeia, um estado europeu, então temos que ter uma moeda única. Mas quem é que perguntou ao povo português se queríamos criar uma nação europeia?

Receia uma perda de identidade?

Não necessariamente. Os bascos mantêm a sua identidade, assim como os índios dos Estados Unidos, mas não têm é independência. O que eu acho grave é perdermos a independência e as decisões que são importantes para nós serem tomadas por outros. A construção europeia é uma porta aberta para todos os abusos.

Perante este cenário, sente alguma frustração por ser um rei sem coroa?

Em certa medida, para muito portugueses Portugal tem um Rei, mas pode-se dizer que a missão do rei em Portugal é uma missão simbólica, uma referência histórica. Curiosamente, mais de metade da população, não sendo a favor da monarquia, acha que é importante haver uma família real em Portugal.

Não gostaria de poder ter um papel mais participativo?

Repare: nós somos convidados em média, por ano, por 50 a 60 câmaras municipais, somos convidados para uma série de acontecimentos de índole cultural e histórica. O mesmo sucede em relação a Timor e a Angola, onde temos sempre um acolhimento especial. Isso significa que há uma participação que é válida.

E emocionalmente, sente-se um rei?

(silêncio) Sinto, sobretudo, que tenho uma responsabilidade, em relação a Portugal, superior, ou diferente, dos outros portugueses, e tento incutir essa ideia nos meus filhos. Todos temos responsabilidades em relação ao país. Há apenas duas vocações: ser sacerdote e ser militar. O resto são profissões. De facto, uma pessoa que se disponha a sacrificar-se pelo seu país está numa posição parecida com a de um rei... Nenhum rei reinante dá opiniões políticas. Há pessoas que me criticam porque o faço, mas se eu não falar sobre política estou a perder uma oportunidade de dizer aquilo que considero que é importante para o país.

Essa é a sua forma de participar activamente na vida do país?

Exactamente. Mas, eu tomo cuidado para não tomar posições partidárias, isso evito fazer.

Essa responsabilidade que toma para si, em relação a Portugal, foi-lhe incutida cedo? Aprende-se a ser um rei?

O meu pai e o meu avô sacrificaram muito da sua vida. Podiam ter feito coisas muito mais agradáveis, ter bons empregos, tinham apetências profissionais, que nunca conseguiram realizar verdadeiramente. O meu pai era engenheiro agrónomo, não era propriamente aquilo que ele gostava, ele interessava-se era por engenharia mecânica, máquinas, aviões, motores. Na altura, os portugueses que lhe pagaram o curso universitário, porque ele não tinha dinheiro para o fazer, disseram-lhe que tinha que seguir agronomia, porque Portugal era um país agrícola e tinha muito mais sentido que assim fosse. Ele aceitou, para servir o país. Foram esses ensinamentos que eu herdei.

E no seu caso, por que escolheu agronomia? Procurou seguir os passos do seu pai?

Não, de todo. Eu fiz testes psicotécnicos, mas, para além disso, sempre fui muito interessado na questão do desenvolvimento rural, da agricultura como forma de protecção da natureza. Onde acabei por aplicar mais os meus conhecimentos nessa área foi em Angola, em programas de desenvolvimento rural. Apostei também na implantação das Caixas Agrícolas Mútuas, que tiveram um papel fundamental na vida dos agricultores portugueses.

Há em si um apego à terra que lhe vem donde? Nasceu na Suíça, nunca esteve muito tempo num lugar.

Sinto as minha raízes em Portugal, claro, mas também em relação a África, a Timor e ao Brasil tenho o mesmo sentimento. Fernando Pessoa dizia: «A minha pátria é a língua portuguesa». Eu digo: onde há pessoas que falem português está a minha pátria.

Dos tempos de África, guardou o cheiro da terra?

Sim, isso é inesquecível, é muito forte. Sabe, gostava muito de fazer um filme sobre a cultura e a tradição dos povos africanos...

É um sonho, como o desejo de ser piloto de helicópteros, que concretizou na Força Aérea e depois no teatro da guerra colonial?

Eu queria muito ser piloto, teria gostado também de ir para a Marinha, mas aí provavelmente o governo da república ter-me-ia posto numa unidade militar em que eu ficasse no continente, e na Força Aérea todos os pilotos iam para África. Essa era a única certeza que eu tinha, que iria para África. Fiz a minha formação em Tancos, e quando fui para Angola colocaram-me numa base aérea onde não havia helicópteros e só podia voar em aviões normais.

E o que fez?

Fiz vários pedidos a solicitar a transferência para uma base onde houvesse helicópteros, nomeadamente na Guiné, que foram sempre indeferidos. Mais tarde, vim a saber que eram ordens do Ministro da Defesa, que era um republicano fanático. Em determinada altura, eu estava proibido de voar em qualquer avião e, comprei uma mota. Dediquei-me a fazer visitas a aldeias africanas, saber da situação, ouvir as queixas das pessoas. Foi assim que completei o meu serviço militar em Angola.

Mas chegou a voar em helicópteros?

Voei, até porque também tenho a licença civil pelo Aeroclube de França. Mas voei muito pouco em Angola.

Sentiu-se injustiçado pelos sucessivos governos?

Depois de 74, em geral, tive um bom relacionamento com os sucessivos governos.  

Chegou a estar no palco de guerra?

Sim.

Ficaram-lhe marcas psicológicas, imagens que nunca conseguiu esquecer daquilo a que assistiu?

Não, porque estive pouco tempo no cenário de guerra propriamente dito. Andava mais nas aldeias, apanhei apenas alguns sustos, mas nada de marcante. Houve sim algumas paixões, ligações afectivas.

Conte-me como é que esta casa, em S. Pedro de Sintra, se tornou a sua casa. Porque desde que chegou a Portugal andava sempre de terra em terra.

Esta casa foi a minha conquista revolucionária, comprei-a em 1975. Eu quando vim para Portugal, primeiro, fui morar para Gaia, para uma casa emprestada pela D. Maria Borges. Depois, o governo disponibilizou ao meu pai uma casa que tinha sido comprada pela Fundação de Bragança para nós vivermos lá. Em 1975, com a revolução, saímos de lá. O meu pai foi viver para casa de uma tia, em Ferragudo, no Algarve, depois apanhou uma febre e morreu, no dia de Natal de 1975.

Deve ser uma data muito especial para si.

É. E nessa altura aconteceu algo muito emocionante. Eu sabia que o meu pai estava doente, que estava mal, mas não imaginava que fosse realmente tão grave e fui passar esse Natal com os timorenses, que se reuniram no Jamor. Houve festa e uma dança com espadas. Durante a dança, quebrou-se uma das espadas e os chefes ficaram com um ar muito comprometido, fez-se silêncio, parou tudo, parou a festa. Eu não percebia o que se passava, até que alguém me explicou que quando se quebra uma espada durante aquela dança significa que vai morrer um rei. Foi exactamente na hora em que morreu o meu pai.

É uma história triste e, ao mesmo tempo, fantástica. Onde é que estávamos antes?

Nas casas. Pois. Esta casa sofreu obras, foi restaurada, estive durante uns anos ainda em Santar, mas quando me casei acabei por ficar aqui. Neste lugar tenho alguns privilégios: uma nascente que vem da serra, os legumes que planto na minha horta, lenha para aquecer a casa, as crianças têm espaço para brincar, às vezes vêm acampamentos de escuteiros ficar aqui na quinta, dá para tudo.

O mais curioso é que poderíamos recuar no tempo e tudo seria igual: a horta, a lenha, a nascente... A sua vivência é muito frugal, diria até que pouco condizente com um rei.

Repare. Os reis têm palácios que simbolizam o próprio país, ainda assim a maior parte dos reis custa menos ao Estado do que os presidentes da república. No meu caso, eu procuro dar o exemplo e não fazer aquilo que critico. Por exemplo, muitas vezes vou de comboio para Lisboa e nas deslocações pelo país

A que é que se dedica actualmente?

As minhas actividades são para a Fundação D. Manuel II, sem fins lucrativos. A última em que eu tive um salário dependente foi na Força Aérea, onde estive durante quatro anos. De resto, agora, ocupo-me muito com as crianças, que são a actividade mais sonante e mais interessante do meu dia-a-dia. Isabel e eu temos esse papel de preparar o futuro da construção de Portugal através dos filhos e não deixá-los apenas na escola, mas participar nas actividades deles. Tão importante como a formação intelectual e física, é a formação moral. Porque se vamos criar uma geração futura de crianças egoístas, indiferentes aos outros, não podemos ter um país desenvolvido.

Incute-lhes os valores cristãos?

Sim. A formação moral, só funciona de for baseada na religião. Se eu acredito em Deus e em que ele observa a minha vida, tenho que ser honesto a sério, sacrificar-me e viver de acordo com os seus ensinamentos. Eu acredito que a vida continua depois da morte.

Essa é uma ideia confortável que lhe vai permitir continuar a acompanhar os seus filhos, mesmo quando já não estiver junto deles?

Sim. É uma ideia cristã que estabelece uma ligação entre todas as gerações, da mesma forma que acredito que os meus antepassados olham por mim. É uma questão de fé.

A morte é um assunto que o preocupa?

Claro que sim, no sentido em que é uma separação das pessoas que gosto. Gostaria de morrer sem sofrimento, sobretudo, sem incomodar as outras pessoas. Foi assim também com os meus pais. Estou convencido que, de algum modo, nós morremos assim como vivemos.

Acredita que as pessoas que sofrem tiveram uma vida menos condizente com os ensinamentos da fé?

Acredito que essas pessoas precisavam da purificação, de ter algum aperfeiçoamento, antes de seguirem o seu caminho. O sofrimento é algo misterioso. Há pessoas que sofrem imenso e ainda assim são felizes, que dão uma dimensão espiritual à sua vida, de outra forma o desespero poderia levá-las ao suicídio. Para quem não tem fé, não vejo que o suicídio seja uma salvação. Agora, o Estado não pode impedir as pessoas de se matarem, pode e deve é impedir que se matem outros, sejam os idosos doentes, os doentes terminais, ou as crianças que ainda não nasceram, através do aborto. Do ponto de vista ético é inaceitável, porque abre o pressuposto de que se pode decidir sobre a vida dos outros sem o seu consentimento.

Mas o aborto não pode ser também um acto de amor e de generosidade de quem quer o melhor para um filho e não tem muito para lhe dar?

- Eu sou a favor de que as mães que pratiquem o aborto não sejam penalizadas por isso, até porque geralmente estão em condições psicológicas difíceis e em situações complicadas. Mas, para esse problema, a solução que temos que encontrar é de apoio a todos os níveis para essas mulheres e não persegui-las judicialmente. Quem devem ser perseguidos são os comerciantes do aborto, clínicas, etc.!  O Estado não pode é legalizar o aborto e autorizar que os médicos o façam, porque se o fizer está a admitir que temos o direito de decidir sobre a vida dos outros e acabar com as mazelas da sociedade. O interesse da comunidade passa por cima dos direitos individuais. Há também o caso dos drogados, e aí até que pontos nós temos o direito de impedir uma pessoa de se matar com droga? Deve o Estado perseguir estes indivíduos ou despenalizar as drogas e deixar que cada um decida por si?

Qual é a sua opinião sobre essa matéria?

Não tenho uma opinião formada sobre o assunto. Outro caso: a prostituição, que oficialmente não existe e, no entanto, há milhares de adultos e jovens que a praticam. Na Suécia perseguem-se os clientes das prostitutas. Nós preferimos fazer de conta que não existem. E os violadores? Na Suíça, os praticantes de pederastia com menores são condenados a prisão perpétua sem possibilidade de serem libertados.  

Está de acordo com a prisão perpétua nesse caso?

A Suíça é um país profundamente democrático, em que as decisões não são tomadas pelas auto-nomeadas elites culturais ou políticas, mas é o povo quem decide o que é importante. Os suíços decidiram em referendo, com uma maioria de 67 por cento dos votos. Em Portugal nunca se perguntou o que se pensa sobre esta ou outras matérias.

Mas concorda?

Não dou opinião sobre isso, sem uma análise séria da questão. O que não pode acontecer é passar por cima dos problemas sem olhar para eles, sem os discutir, sem perguntar ao povo o que pensa sobre o assunto. Se queremos uma justiça adequada, temos que ter prioridades e gastar o dinheiro público nas instituições fundamentais para o país e não em estádios de futebol e obras de países ricos. Veja-se o dinheiro que se desperdiçou na Expo’98.

O que representou culturalmente e as pessoas que trouxe não foi positivo?

O que é que se aprendeu culturalmente? Da História de Portugal, nada. Eu fui contra a Expo desde o princípio, da mesma forma que fui contra a Ponte Vasco da Gama, porque temos que ter prioridades quando somos dos países mais atrasados da Europa.

Um dos papéis em que se sente confortável é o de diplomata?

Sim, e procuro levar a minha diplomacia a países em que é mais difícil o relacionamento. Foi o caso da Indonésia, em que convenci o vice-presidente da república de que Timor era diferente do resto da Indonésia e que eles deviam ter um governo completamente autónomo. Quando ele chegou a Presidente, foi apresentada a proposta para conduzir primeiro Timor à autonomia e depois, em referendo, diriam se estavam contentes ou se queriam a independência. Ora, o que sucedeu foi que o referendo foi feito ainda durante o regime militar, o que levou aos confrontos pós-eleitorais. Eu estou convencido que se a minha proposta tivesse sido seguida, hoje Timor era um país independente, provavelmente teria um estatuto de associação com Portugal ou com a União Europeia, não tinha os problemas económicos dramáticos que tem. Também tenho uma solução para Angola, que não é ouvida. E, no entanto, sou bem recebido e ouvido em todo o lado. Nos países árabes, sou recebido não só como português, mas como descendente do profeta Maomé.  

Do profeta?

Sim. Porque a rainha Santa Isabel é descendente de uma princesa árabe descendente do profeta Maomé. Depois casou com o rei de Aragão. De modo que eu tenho essa árvore genealógica muito interessante que é sempre bem vista nos países islâmicos.

É uma grande responsabilidade?

É. Por outro lado, quando estou com os meus amigos judeus, explico-lhes que através de D. Afonso Henriques também sou descendente de David...

E que outras questões lhe ocupam o tempo para além da diplomacia?

Interessa-me muito o problema da língua portuguesa entre as comunidades emigrantes portuguesas no mundo. A Fundação D. Manuel II, de que sou presidente, não tem muitos meios, mas tem feito acções interessantes: estabelecemos bibliotecas em todos os países lusófonos, a única biblioteca portuguesa que há em Goa é nossa; ajudámos Timor, comprámos uma gráfica que foi entregue à diocese de Baucau e que é uma ferramenta determinante para a leitura e que foi ajudar a economia do território. Devíamos investir a sério no envio de livros para as comunidades. Se pensarmos no dinheiro que foi deitado fora na construção do monstro do CCB, 10 por cento do seu custo serviria para fornecer todos os livros necessários para permitir que se continuasse a falar português nos países lusófonos.

Fale-me de D. Isabel de Herédia. O que o encantou nela?

A inteligência, a boa disposição, a alegria. Eu conheci a minha mulher em criança, em Angola, ela tinha sete anos. Fomos sempre como irmãos, até que, em determinada altura, eu me dei conta de que estava sempre a comparar as minhas amigas e as minhas namoradas com a Isabel, ela era a referência, as outras eram sempre menos interessantes, menos bonitas. E pensei que realmente podíamos ser mais do que amigos.

Pediu-a em namoro?

Sim. A Isabel foi apanhada de surpresa. Pedi-a em casamento uma vez, em Santiago de Compostela. Ela pediu-me para pensar e como passou algum tempo e não tive resposta, não insisti. Passado uns tempos, eu fui ao Brasil, onde ela se encontrava a viver, e pedi-lhe novamente, ao que ela me disse que estava apenas à espera que eu perguntasse. E aceitou. Ainda bem que insisti. (risos)

Falou em «várias namoradas». Era muito namoradeiro?

Sim, um pouco instável. Tive várias namoradas, mesmo em Angola, depois houve uma com quem acreditei que ia mesmo casar, uma russa, mas  não se concretizou.

 

Teve o seu primeiro filho aos 50 anos. Foi um pai tardio. Prefiro dizer maduro. (risos) Sucedeu o mesmo com o meu pai, com o meu avô, com o meu bisavô também. Mas houve uma altura em que chegou a pensar que talvez não tivesse filhos?

Não. Aconteceu que as raparigas com que eu achei que devia casar acabaram por não dar esse passo. As outras, que estavam mais interessadas em mim, eu achava que não eram a pessoa certa.

Acha que seria a mesma pessoa se não tivesse nascido com essa responsabilidade de ser rei?

Metade de nós é uma herança genética, de cromossomas, a outra metade é uma herança cultural. Os meus pais incutiram-me determinados valores que se prendem com essa responsabilidade. Não sei como seria, se fosse outra pessoa... Talvez estivesse simplesmente a trabalhar em África, ou num programa de desenvolvimento social. Mas é difícil saber.

Por vezes, gostaria de não sentir esse peso da história?

Tinha algumas vantagens, mas não vale a pena pensar nisso. Devo antes pensar que devo dar o melhor de mim com as capacidades que tenho.

Imagina-se que uma família real tem terras, património, dinheiro...

... Isso depende. Veja-se a Rainha de Inglaterra, que é considerada muito rica, mas a escritora do Harry Potter é muito mais rica do que ela.

Mas tem privilégios por ser o Chefe da Casa Real?

Tenho mais deveres, no sentido da responsabilidade em relação ao país, de que já falámos.

Sente que a vida lhe foi mais fácil, que se abriram portas, por ser o herdeiro ao trono?

Permitiu-me, sobretudo, trabalhar em projectos sociais e actuar nesse campo, dar resposta a problemas muito graves. Mas também criou problemas. As pessoas são muito preconceituosas.

Sente-se discriminado por isso?

Sim, ainda hoje.  

Com que cognome é que acha que ficaria para a história?

É curioso que só em Portugal todos os reis ficaram com um nome associado. É algo que já pensei, mas nunca cheguei a uma conclusão.

Revê-se no seu boneco do «Contra-Informação»?

Acho engraçado, embora em determinada altura, quando eu disse que tinha sido um prejuízo enorme para a cultura portuguesa que Saramago tivesse sido distinguido com o prémio Nobel, tenham feito uma campanha hostil contra mim. E, às vezes, ainda me põem a fazer uma figura um bocado apatetada. Mas há outros piores do que eu.

Mas ri-se com o que vê?

Acho muito divertido.

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«Os republicanos criaram a ideia que o chefe de Estado é eleito pelo povo em geral e que o povo vai eleger o melhor de todos os cidadãos para aquele cargo. Na verdade, é eleito o que tem mais dinheiro para a campanha eleitoral, o que tem o apoio dos políticos mais poderosos, o que consegue ter os melhores assessores a cuidar-lhe da imagem. O produto que é melhor vendido, é o que ganha as eleições. E pode ser um indivíduo  anormal»  

«Portugal conseguiu, de 1910 até hoje, passar do meio da escala da Europa para último país em todos os campos. Procurámos resolver os problemas, primeiro, com o Gomes da Costa, depois foi com a revolução de 1974, mas cada vez que há uma revolução perde-se imenso tempo, estraga-se a economia e atrasamo-nos imenso. Para conseguir o quê? Conseguir uma democraciazinha mazinha, o que Espanha conseguiu em seis meses com o Rei. Nem se pode dizer que o 25 de Abril ou o 5 de Outubro tenham valido a pena»

«Se queremos uma justiça adequada, temos que ter prioridades e gastar o dinheiro público nas instituições fundamentais para o país e não em estádios de futebol e obras de países ricos. Veja-se o dinheiro que se desperdiçou na Expo’98. O que é que se aprendeu culturalmente? Da História de Portugal, nada. Eu fui contra a Expo desde o princípio, da mesma forma que fui contra a Ponte Vasco da Gama, porque temos que ter prioridades quando somos dos países mais atrasados da Europa»

«Os reis têm palácios que simbolizam o próprio país, mas a maior parte dos reis custa menos ao Estado do que os presidentes da república. No meu caso, eu procuro dar o exemplo e não fazer aquilo que critico. Por exemplo, muitas vezes até vou de comboio para Lisboa e nas deslocações pelo país. Mas sou muito discreto. Ponho o chapéu na cabeça e aproveito para descansar. Às vezes vêm falar. Aborrecido é quando ficam só a olhar para nós» .

Entrevista de: Sandra Nobre

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